Chegou fevereiro e lá vem mais um carnaval de luta
Chegou fevereiro e lá vem mais um carnaval de luta
Se fevereiro chegou, é sinal de que os finais de semana se tornaram pré-carnavalescos e o espírito da folia de Momo anima todos e todas as brincantes pelos rincões do Brasil, no aguardo da brincadeira popular mais brasileira e democrática do ano. Mas, nesse turbilhão de emoções, nem tudo é inconsequência, até porque, quem disse que carnaval não combina com luta política?
A musicalidade e cultura pernambucana surgem da criatividade que junta alegria e mobilização social. O maracatu, o afoxé, o frevo são ritmos que embalam a história da resistência do povo negro e indígena em Pernambuco. Tais ritos culturais, entre outros, encontraram no entrudo, entre os séculos XVII e XIX, um espaço para suas expressões, uma vez que essa manifestação trazida pelos portugueses durante o colonialismo europeu, permitia uma celebração de caráter popular que foi bem acolhida entre as camadas mais pobres da sociedade, homens e mulheres alforriados ou ainda escravizados.
O carnaval de rua tem em sua radicalidade um apelo à manifestação política, longe dos palácios do Poder Judiciário, das Assembleias Legislativas e ainda mais distante da Praça dos Três Poderes, em Brasília. A rua é a arena natural da manifestação pública. Assim, blocos, troças, ursos, bois e escolas de samba derramam o colorido dos desejos e sonhos de um mundo melhor também na folia.

Pautas feministas são manifestadas em blocos como o Nem com uma Flor, que completa neste carnaval 25 anos denunciando a violência de gênero. Outro exemplo é o Eu Acho é Pouco, fundado em 1976, sustentando as cores do vermelho e amarelo, da influência política dos fundadores em protesto contra a ditadura militar, estética que, somada ao famoso dragão, dura até hoje. Nem o famoso calunga que sai em desfile nas ruas de Olinda, o Homem da Meia Noite, foge ao rito da boa oportunidade de influenciar a opinião pública. O boneco gigante que desfila desde 1932 chegou a marcar posição no carnaval de 1980 com uma mensagem em seu traje defendendo a instalação de uma refinaria de petróleo da Petrobrás em Pernambuco.
Assim, o carnaval segue sendo o festejo popular mais politizado do Brasil. Manifestação cultural em disputa no espectro do público e privado, mas que tem um potencial subversivo que flerta com a esperança revolucionária de uma liberdade plena, por um mundo de sorrisos e exageros.

