O Sindipetro PE/PB é o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Petróleo e Gás Natural dos Estados de Pernambuco e Paraíba, filiado à Federação Única dos Petroleiros (FUP) e à Central Única dos Trabalhadores (CUT). A entidade sindical busca amparar a força de trabalho do setor e empenha esforços de mobilização social e política a favor da dignidade das trabalhadoras e trabalhadores, do desenvolvimento industrial sustentável através de uma transição energética justa e da soberania nacional.

Sindipetro PE/PB
Saúde pública

ARTIGO: Caneta emagrecedora é revolução… ou atalho perigoso?

Caneta emagrecedora é revolução… ou atalho perigoso?

Antes, o acesso as chamadas canetas emagrecedoras eram quase que exclusivo de pessoas ricas, chegando a ser usadas como presentes entre lobistas e parlamentares, em Brasília. Porém, agora com a quebra das patentes para produção, já há na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) oito pedidos em análise para o registro de remédios com a substância.

O governo federal zerou o imposto de importação sobre componentes usados na produção de canetas emagrecedoras em medida aprovada no dia 26 de março, pelo Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex). A alíquota foi de 14,4% para 0% no período de um ano.

Com a passagem no mês de março, do Dia Mundial da Obesidade, apresentamos artigo escrito pelo médico Diego Santos, do Livantti – Instituto de Medicina, Estética e Bem – Estar sobre o tema.

Importante desconstruir mitos sobre o assunto, assimilar bons hábitos alimentares e prevenir doenças consequentes da obesidade. Boa leitura!

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Autor: Dr. Diego Santos*

Vivemos um momento histórico no tratamento do sobrepeso e obesidade. Pela primeira vez, temos medicações capazes de promover reduções de 10%, 15% e até mais de 25% do peso corporal, com resultados que, em alguns casos, se aproximam de uma cirurgia bariátrica, mas sem procedimento invasivo.

Mas com essa revolução veio um fenômeno preocupante: o uso indiscriminado, a automedicação e o crescimento do mercado paralelo das chamadas canetas emagrecedoras. E, com isso, surgem dúvidas que ganham espaço na mídia: essas medicações podem causar cegueira? E pancreatite?

Antes de discutir riscos, é preciso entender o cenário.

A pandemia silenciosa que continua matando todos os anos

A obesidade não é apenas uma questão estética. É considerada pela Organização Mundial da Saúde uma epidemia global e já é tratada por muitos especialistas como uma pandemia metabólica. No Brasil, mais de 57% da população está acima do peso e cerca de 22% vive com obesidade, segundo dados do Ministério da Saúde. Isso significa que mais da metade dos adultos brasileiros apresenta risco cardiometabólico aumentado. No mundo, mais de 1 bilhão de pessoas vive com obesidade. Se incluirmos o sobrepeso, esse número ultrapassa 2,5 bilhões de indivíduos.

O excesso de peso está associado a aproximadamente 4 a 5 milhões de mortes por ano globalmente, principalmente por doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, acidente vascular cerebral e alguns tipos de câncer. Estamos falando de uma condição crônica que reduz a expectativa de vida, aumenta internações hospitalares e impacta profundamente os sistemas de saúde. Discutir tratamento da obesidade não é discutir estética. É discutir prevenção de morte precoce.

É nesse contexto que entram medicamentos como Saxenda, Ozempic e Mounjaro. Eles pertencem à classe dos agonistas de GLP 1 e, no caso da tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, atuam também como agonista de GIP. Essas medicações regulam apetite, aumentam saciedade e melhoram a sensibilidade à insulina.

Essas medicações são seguras?

Medicamentos como semaglutida (princípio ativo do Ozempic), liraglutida (Saxenda) e tirzepatida (Mounjaro) foram aprovados após grandes ensaios clínicos com milhares de pacientes acompanhados por anos. Os efeitos colaterais mais comuns são gastrointestinais e geralmente transitórios.

Em relação aos eventos mais temidos, como pancreatite, a incidência observada nos estudos é baixa, em torno de 0,2% a 0,5%, sem aumento consistente quando comparada ao placebo. Sobre o risco de cegueira, o que está em investigação é uma condição rara chamada neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, sem evidência conclusiva de causalidade direta na população geral. Ou seja, em ambos os casos, a gente não tem evidências científicas robustas para uma relação de causa-consequência. Quando bem indicadas e acompanhadas, essas medicações apresentam perfil de segurança considerado aceitável pelas principais agências regulatórias. Porém, segurança depende de avaliação individualizada e acompanhamento adequado.

O verdadeiro perigo está na forma de uso

O maior risco hoje não está necessariamente na medicação aprovada e estudada. Está na automedicação, nas canetas adquiridas sem prescrição, nas fórmulas manipuladas clandestinamente e no uso sem acompanhamento profissional.

Temos observado no Brasil crescimento de produtos falsificados, canetas reaproveitadas, substâncias sem rastreabilidade e fórmulas sem controle rigoroso de qualidade. Em muitos casos, o paciente sequer sabe o que está aplicando. O problema deixa de ser farmacológico e passa a ser sanitário.

A ilusão da solução isolada

Existe uma crença crescente de que a caneta, por si só, resolve a obesidade. Não resolve.

Essas medicações são ferramentas potentes, mas a obesidade é uma doença multifatorial. Um tratamento consistente precisa integrar alimentação estruturada, exercício físico adequado ao perfil metabólico, sono regulado, saúde intestinal, correção de deficiências nutricionais e, quando indicado, avaliação hormonal.

Um ponto fundamental, e frequentemente negligenciado, é o ajuste metabólico ao longo do processo. Quando a perda de peso acontece sem correção da resistência insulínica, sem preservação de massa muscular e sem reorganização metabólica, o risco de reganho após a suspensão da medicação aumenta significativamente. O efeito rebote não é uma consequência inevitável da caneta, mas da ausência de estratégia.

Com planejamento adequado, acompanhamento estruturado e transição progressiva, é possível manter resultados e reduzir drasticamente o risco de recuperação do peso.

Resultado duradouro exige estratégia, não improviso

Estamos vivendo uma fase extraordinária da medicina metabólica. Nunca tivemos ferramentas tão eficazes para tratar a obesidade. Mas ferramenta, por si só, não sustenta resultado.

Prescrever é apenas uma etapa. O que determina a manutenção de peso, estabilidade metabólica e redução real de risco cardiovascular é a construção de uma estratégia médica bem estruturada. Isso envolve avaliação clínica completa, análise de risco, ajuste metabólico, equilíbrio hormonal quando necessário e planejamento do longo prazo.

A diferença entre um tratamento improvisado e um tratamento estruturado costuma ser a diferença entre perder peso temporariamente ou promover uma transformação metabólica duradoura.

As canetas não são vilãs. Também não são milagres. São instrumentos potentes dentro de um plano maior.

Porque saúde não se constrói com improviso, constrói-se com estratégias médicas.

*Dr. Diego Santos é médico (UFPE) • CRM/PE 27.313